O Início de Tudo
Desde Portugal

O Juiz e Historiador Antônio Pacheco Guerreiro Júnior

Portugal: Origem da nossa História.

 

Significativamente emocionado com a homenagem que ora recebo, primeiro, dos meus ilustres pares ante a gentil sugestão da Desembargadora Etelvina, segundo, do povo de Bacabal, através dos seus ilustres representantes no Parlamento Municipal, não tenho como restringir o script desta oratória mercê o dever de contar-lhes, pelo menos o início da história de nossa adorada Bacabal, sem esquecer de homenagear Portugal, origem do seu herói fundador.

Portugal, pequenino país da Península Ibérica, situado na parte ocidental, ilhado entre o mar e os reinos de Castela e Leon, foi uma das nações que abriu caminho à descoberta e a exploração da América.

Privilegiado por uma rica rede hidrográfica caudal e importante, nascida em Espanha, como os rios Minho, Douro, Guadiana e Tejo, de águas límpidas e cristalinas, que não só arrefecem o fervor entusiasmado dos alvos e cândidos corpos das belas e formosas raparigas das suas mais diversas regiões, como constituem importantes ancoradouros, mormente as fozes dos rios Douro e Tejo, que garantem à nação portuguesa importante plataforma natural para a sua existência vocacionada ao comércio atlântico e ultramarino.

Uma das mais antigas nações da Europa, existindo como país aproximadamente a oito Séculos, Portugal, sujeitou-se às mais alucinadas e regulares invasões, que moldaram o espírito da cultura portuguesa, enriquecida com as viagens dos grandes descobridores, que contribuíram para que o país ficasse mais aberto às influências orientais e à revelação da riqueza brasileira, em joias e ouro, influenciando a utilização da chama barroca na decoração dos palácios, das igrejas, das catedrais, dos castelos dos nobres, enfim, de tudo quanto realizado pela coroa.

Registram alguns dos historiadores, que Portugal começa pelos fins do Século XI, altura em que a Galiza – reino, que tal como os de Oviedo, Navarra e Castela, se formou com a reação cristã dos visigodos contra os muçulmanos – se encontra dividida em diversos condados, entre os quais o Condado Portucalense, cujo nome lhe vinha da sua principal povoação (Portucale) e que ficava próximo da foz do rio Douro, mais ou menos onde é hoje a cidade do Porto; que o Conde D. Henrique de Borgonha, no ano de 1095, após vencer o combate com os muçulmanos que ocupavam grande parte da península ibérica, tornara-se o comandante de Condado Portucalense, ao receber de D. Afonso de Leão e Castela tal título de nobreza pela recompensa e bravura dos seus feitos de armas.

Não obstante a bela e empolgante história de Portugal, detentora de um vasto império de rotas que faziam de Lisboa o mais importante comércio europeu, de maior expansão ultramarina, de economia com vocação agrícola e pecuária de exportação, fundamentalmente cerealífero, destacando-se pelo cultivo de trigo e milho, além de importantes produções de azeite, legumes e hortaliças, cortiça, vinhos e calçados, não esquecendo – já me avistam os portugueses – da vasta costa marítima e da abundância de peixes nas águas que rodeiam o país, que favorecem o desenvolvimento da indústria piscatória de sardinhas, anchovas, e o próprio bacalhau do Atlântico Norte, que seria o bastante para dimensionar o valor português, embora a nossa dimensão histórica, no momento, se concentre a meados do século XVIII.

Com a ascensão ao trono português do Rei D. José I, foi escolhido como Primeiro Ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. Devido à personalidade reformadora do novo monarca, instalou-se, no reino, o “despotismo esclarecido”, onde os Príncipes passaram a ter poderes absolutos para atenderem as necessidades dos seus súditos, tendo o novo Rei dizimado o prestígio até então vigente do clero e da nobreza, pondo termo ao Tribunal da Inquisição, que deliberava, sem direito de defesa, fossem queimados vivos todos quantos condenados. Registra a história a passagem de um massacre – qualificado como genocídio pelos historiadores – quando de uma só deliberação foram queimados vivos centenas de mulheres, milhares de judeus e dezenas de pessoas consideradas infiéis ao clero e a nobreza.

A dimensão reformadora implantada pelo monarca visava estabelecer maior controle sobre as terras conquistadas. Assim, aos olhos do Marquês de Pombal, criou-se a Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, onde o alto burgo e a desprestigiada nobreza resolveram associar-se. No Maranhão, descia pelas veias correntes dos rios Itapecurú e Mearim as lavouras do arroz da Carolina, do algodão e da cana-de-açúcar, que eram desmanchadas nas moendas dos grandes senhores de engenhos ao manejo da força do trabalho escravo, cujos negros africanos, traficados de Angola, aportavam no Rio de Janeiro, onde eram leiloados aos seus senhores.

A macro visão do Marquês de Pombal levou o rei de Portugal a criar a Junta de Justiça, oportunidade em que o desenvolvimento econômico e cultural abriu um vasto leque de realizações especialmente para o Maranhão.

Nessa época, em Portugal, no distrito de Braga, viviam dois irmãos: Antonio Vieira da Silva e Francisco Antonio Vieira da Silva. Impressionados com as notícias divulgadas na Corte sobre as riquezas do Brasil, a maior das Colônias já conquistadas, resolveram investir na Companhia idealizada pelo Marquês de Pombal. Francisco Antonio Vieira da Silva torna-se sócio fundador da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, enquanto seu irmão Antonio Vieira da Silva, casado com sua prima dona Josefa Maria, pais do Capitão José Vieira da Silva, a convite do Marquês de Pombal, veio para o Maranhão administrar, com todos os poderes, a Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, tornando-se o patriarca de uma plêiade de homens ilustres.

O rico burguês, Francisco Vieira da Silva, assíduo frequentador da corte de D. José I, nasceu na Vila de Guimarães, freguesia de São Sebastião, arcebispado de Braga, no dia 28 de maio de 1720; casou-se com dona Anna Encarnação Monção Ribeiro no distrito de Portalegre, em 30 de junho de 1745, nascendo dessa união os filhos Águeda Maria Tereza, Anna e Domingos Antonio Vieira da Silva.

Águeda Maria Tereza Vieira da Silva, casou-se em Portugal com Lourenço Silva Abreu em 1763, de cuja união houveram duas filhas: Águeda Silva Abreu e Maria Úrsula da Silva Abreu, esta, tempos depois, casou-se com seu tio Domingos Antonio Vieira da Silva, cujo neto, Capitão Lourenço Antonio Vieira da Silva, bisneto de Francisco Vieira da Silva, veio para o Maranhão a convite do Comendador Luis Antonio Vieira da Silva, à época, autoridade de grande influência na Corte e principalmente no governo da Província.
Aqui, exatamente, inicia-se a história de Bacabal, quando traço a ascendência do fundador desta cidade.
O Comendador Luis Antonio Vieira da Silva, pelos seus feitos de bravura e pela intima amizade que tinha com o monarca e principalmente com o Marquês de Pombal, foi presenteado com significativa quantidade de terras, cujos mapas demarcavam a propriedade de vale a vale, mas somente se utilizava daquelas que já haviam sido beneficiadas e em plena produção. Era exatamente a localidade onde hoje instalado o Município de São Luis Gonzaga.
Contou-me certa feita o historiador Fabrício Gonçalves de Moraes – pessoa bastante conhecida no vizinho município de São Luis Gonzaga pelos seus conhecimentos históricos – que a rica mancha de terras destinadas ao Capitão Lourenço Antonio Vieira da Silva, eram bem mais férteis do que aquelas que ficavam à margem direita do rio Mearim, revelando-me, ao folhear seus escritos históricos, a dificuldade que teve o Capitão Lourenço Antonio Vieira da Silva de se relacionar, logo quando aqui se instalou, com os nativos que habitavam a região.
O certo é que o nosso bravo herói, logo que chegou ao Brasil tinha a incumbência de desenvolver e colonizar as terras da margem esquerda do rio Mearim, aliás, motivo de deixar a sua pátria e vir para o Maranhão. Acompanhado por um tenente coronel da brigada e de outros tantos serviçais do Comendador Luís Antonio, o Capitão Lourenço Antonio Vieira da Silva subiu o velho Isó navegando, por dias, em dois batelões, um dos quais carregado de suprimentos.

Aportou, então, numa baixa de terra firme, rudimentar, onde um estreito caminho se prolongava em aclive ao topo de uma pequena área plana, onde não morava ninguém e onde o mato entrelaçado encobria a visão de sua amplitude. Decidiu se instalar nesse local, pois sabia que alguém, a qualquer tempo, retornaria àquele lugar. Algumas semanas depois, confrontou-se com os índios, resultando dessa disputa a morte do tenente coronel, pessoa da mais alta estima e confiança do Comendador Luis Antonio Vieira da Silva.

Aborrecido com a morte desse seu antigo e leal escudeiro, o Comendador resolveu desistir daquelas terras, tendo-as doado para o comandante Antonio Lourenço Vieira da Silva, pedindo-lhe, contudo, que fundasse uma colônia indígena para o que dispunha de homens preparados e recursos financeiros da coroa para catequizar os nativos. O comandante aceitou a proposta do Comendador, tendo este se empenhado para que o Presidente da Província, Dr. Eduardo Olímpio Machado, baixasse a Portaria de 11 de abril de 1854, autorizando o Capitão Antonio Lourenço Vieira da Silva, a fundar a Colônia Indígena Leopoldina, trazendo consigo diversas pessoas, dentre tantas, vários missionários religiosos.

Não foi difícil, com o auxílio dessas pessoas, rapidamente conquistar a confiança das três tribos indígenas que habitavam essa parte do rio. Estabelecida a relação de confiança entre o Comandante e os índios Timbiras, Crenzés e os Pobzés, a Colônia Leopoldina passou a produzir arroz, feijão, milho, mandioca e algodão, inicialmente para atender a sua própria necessidade, posteriormente pelo significativo aumento da produção fez-se necessário a venda para o mercado distribuidor, localizado na sede da Província.

Subindo ainda mais o Mearim, observou o Capitão Antonio Lourenço Vieira da Silva que toda aquela região, tanto de um lado quanto de outro do rio, era ornamentada por frondosas palmeiras, de caule anelado, de folhas verdes e paralelas, de flores branco amarelado e com frutos carnosos de tom rosa escuro, bastante oleoso a que os índios chamavam de wa’kawa – bacaba, bacabinha, bacau, coqueiro-bacaba e macaba –, devido as mais diversas variedades, de onde os índios Timbiras, Crenzés e Pobzés, extraiam o vinho (que na verdade era suco), faziam doce e azeite e se alimentavam do palmito. Do tronco e folhas construíam suas casas, cortavam a lenha e dos talos faziam lanças e bengalas. O nome científico da bacaba, que registra três espécies tem-se como: 1ª Oenocarpus Circumtextus; 2ª Oenocarpus Multicaulis e 3ª Oenocarpus Tarampabo.

Nessa época, o algodão branqueou o pequenino vale do Isó, como era conhecido pelos índios o pardacento rio Mearim. A Colônia Indígena Leopoldina se tornou a mais próspera de todas as colônias da Província, devido à intensa produção do arroz, feijão, milho, mandioca e outras lavouras de vazante, atraindo, com a alta fertilidade das terras, a convergência imigratória de lavradores, fazendo com que se expandissem as áreas de produção.

Todavia, em fevereiro de 1878, portanto, logo no início do ano, a Colônia Indígena Leopoldina foi significativamente afetada por uma epidemia de malária, que dizimou muitos dos índios que a ela integravam e os que sobreviveram não mais tiveram o interesse de permanecer nas terras, refugiando-se, ao que se sabe, em diversas outras regiões deste Estado, motivo pelo qual o Capitão Lourenço Antonio da Silva foi obrigado a acabar com a Colônia Leopoldina, passando a chamar o local de Fazenda Bacabal.

Contudo, restaram centenas de trabalhadores rurais, muitos dos quais apesar de atingidos pela peste, permaneceram morando nos arredores da casa sede da fazenda. O Capitão Lourenço Antonio Vieira da Silva continuou a desenvolver o trabalho lavoureiro, ao que estabelecia parceria agora com os lavradores, que continuavam a imigrar para aquele local. Passou, também, a adquirir os produtos agrícolas do alto Mearim transportados nos velhos batelões. Fez com que o porto da fazenda fosse parada obrigatória de todos os lavradores que laboravam rio acima. Adquiriu suas próprias embarcações e após beneficiar os produtos agrícolas e, principalmente o babaçu, vendia-os no mercado da Capital da Província.

O progresso da Fazenda Bacabal foi de tal sorte que despertou interesse do Governo, a ponto de instalar, em abril de 1885, na sede da Fazenda, um posto de postagem do correio que era utilizado como elo de comunicação, através da fluvial navegação de cabotagem.

Assim, o Capitão Lourenço Antonio Vieira da Silva, extremamente rico, cansado de viver isolado e principalmente por nutrir uma saudade incontrolável de Guimarães e de sua gente, em fevereiro de 1888, vendeu a fazenda para o Sr. Raimundo Alves de Abreu, retornando para Portugal.

Com a aquisição da propriedade por Raimundo Alves de Abreu, a Fazenda Bacabal passou a ser chamada de “Sítio dos Abreus”, que, do mesmo modo e na mesma intensidade continuou a prosperar, sendo cada vez maior o fluxo de lavradores imigrantes que advinham de outras cidades do Nordeste. O Sítio dos Abreus inaugurou o ciclo da pecuária na região, em agosto do ano de 1905, quando, então, os lavradores foram obrigados a plantar capim nas quadras de terras que utilizavam na lavoura, o que permitiu um maior crescimento para o povoado.

 

Povoado elevado à categoria de Vila, depois de Cidade.

 

Em 17 de abril de 1920, através da Lei n° 932, outorgada pelo então Governador do Estado, Dr. Urbano Santos da Costa Araújo, o povoado “Sítio dos Abreus” foi elevado à categoria de vila, passando a ser chamado de “Bacabal dos Abreus”, sendo que a 7 de setembro do mesmo ano (1920), instalou-se, oficialmente, o Município de Bacabal, com seu território desmembrado do Município de São Luís Gonzaga do Maranhão, à época, com 9.500 habitantes em todo seu território.

Finalmente, através do Decreto-lei n° 159, de 06 de dezembro de 1938, do Governador Paulo Ramos, Bacabal passou à categoria de cidade, tendo sido administrada até agora por 45 (quarenta e cinco) prefeitos, cujos nomes passo doravante a declinar: Jorge José de Mendonça; Manuel Guimarães; Jorge José de Mendonça; Raimundo Teles de Menezes; Odorico Miranda Leal; Pedro José de Sousa; Joaquim Ribeiro; Manoel Campos Sousa; Ranulfo Fernandes; José Maria Sousa; Ranulfo Fernandes; Vicente Medeiros; Raimundo Marques; Belarmino Freire; Lauro Oliveira; Raimundo Assenço Costa Ferreira; Raimundo Santos; Francisco das Chagas Araújo; Euzébio Martins Trinta; Lino Feitosa; Joaquim Paulo Gonçalves; Aristarço Martins; Alceu Pereira Martins; Euzébio Martins Trinta; Francisco Borges de Matos; Mariano José Couto; Frederico Leda; José Everton de Abreu; Raimundo Trindade Vale; Frederico Leda; João Gomes Vidal; Antonio Pereira da Silva Neto; Benedito de Carvalho Lago; Carlos Alberto Dias Sardinha; Manoel Quadros de Oliveira; Francisco Coelho Dias; Juarez Alves de Almeida; José de Sousa e Silva Filho; Raimunda Ramos Loiola; João Alberto de Sousa; Jurandir Ferro do Lago; Jocimar Alves de Sousa; José Vieira Lins, José Vieira Lins e Raimundo Nonato Lisboa.

Não posso deixar de registrar o fato da minha querida amiga Raimunda Ramos Loiola ter sido, até então, a única mulher eleita Prefeita do Município de Bacabal.

 

Obs.: Texto originalmente publicado pelo radialista Louremar Fernandes no blog que mantém na internet sob o endereço http://www.louremar.com.br/p/historia.html

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